terça-feira, 17 de abril de 2007

post longo

Alguns sabem que levo algum tempinho pra processar algumas informações, especialmente após dias e noites de o.m.d.d.c frenético...

Da conversa com Cámilas na semana passada, além de resultar na certeza de que somos pessoas inteligentes as hell - ha ha ha - ainda recebi esse e-mail/carta - que dizem ser de Clarice Lispector- que define taaaaaaanto o que tenho pensado...
(Fora o "Mulheres" que ainda não terminei pq páro para digerir tudo o que leio, e ontem, ao retomá-lo, tive outra resposta para as minhas indagações... Basicamente ele dizia:
"para começar a cura, pare de se iludir com a idéia de que um pequeno paliativo irá consertar uma perna quebrada. Seja franco frente às suas feridas, e assim terá uma imagem correta do remédio necessário. Não jogue no vazio o que for mais fácil ou estiver disponível. Faça questão do medicamento adequado. Você o reconhecerá porque ele irá fortalecer a sua vida, em vez de enfraquecê-la."

Ok, ok... eu sei que já tive looongas conversas com minhas queridas que falavam exatamente isso, mas nada como uma T E O R I A publicada para me fazer convencer...)
Voltando à carta:

"Querida,

Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Nem sei como lhe explicar minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até um certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias. Depois que uma pessoa perde o respeito a si mesma e o respeito às suas próprias necessidades - depois disso fica-se um pouco um trapo.
Eu queria tanto, tanto estar junto de você e conversar e contar experiências minhas e dos outros. Você veria que há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo.
...
Uma outra pessoa disse que eu me movo com lassidão de mulher de cinqüenta anos. Tudo isso você não vai ver nem sentir, queira Deus. Não haveria necessidade de lhe dizer, então. Mas não pude deixar de querer lhe mostrar o que pode acontecer com uma pessoa que fez pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado. Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você - pelo amor de Deus, não queira fazer de você mesma uma pessoa perfeita - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse o único meio de viver.
Juro por Deus que se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia - será punida e irá para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não será punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Espero em Deus que você acredite em mim. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Isso seria uma lição para mim. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade de alma.

Tua Clarice


Em 95, o escritor Caio Fernando Abreu, então colunista do jornal O Estado de São Paulo, publicou uma carta que teria sido escrita por Clarice Lispector a uma amiga brasileira. Ele comenta, no artigo, que não há nada que comprove sua autenticidade, a não ser o estilo-não estilo de escrita de Clarice Lispector. Ele dizia: "A beleza e o conteúdo de humanidade que a carta contém valem a pena a publicação..."

2 comentários:

Bárbara Semerene disse...

Essa carta diz simplesmente TUDO.
Abandonaste o meu blog, fiel leitora?
Beijos

Anônimo disse...

Sabia que vc entenderia!!!! Como sempre, inteligentíssima ( como queríamos demonstrar) hahahahaha
E vinhozinho sempre tem lá em casa pros amigos. Beijos muitos