segunda-feira, 13 de agosto de 2007

e por falar eM flores...

Pude bem cedo conhecer melhor aquela flor.
Sempre houvera, no planeta do pequeno príncipe, flores muito simples, ornadas de uma só fileira de pétalas, e que não ocupavam lugar nem incomodavam ninguém.
Apareciam certa manhã na relva, e já à tarde se extinguiam. Mas aquela brotara um dia de um grão trazido não se sabe de onde, e o principezinho vigiara de perto o pequeno broto, tão diferente dos outros.
Podia ser uma nova espécie de baobá. Mas o arbusto logo parou de crescer, e começou então a preparar uma flor.

O principezinho, que assistia à instalação de um enorme botão, bem sentiu que sairia dali uma aparição miraculosa; mas a flor não acabava mais de preparar-se, de preparar sua beleza, no seu verde quarto.

Escolhia as cores com cuidado. Vestia-se lentamente, ajustava uma a uma sua pétalas. Não queria sair, como os cravos, amarrotada. No radioso esplendor da sua beleza é que ela queria aparecer. Ah! Sim. Era vaidosa. Sua misteriosa toalete, portanto, durara dias e dias. E eis que uma bela manhã, justamente à hora do sol nascer, havia-se, afinal, mostrado.

E ela, que se preparava com tanto esmero, disse, bocejando:
- Ah! Eu acabo de despertar... Desculpa... Estou ainda toda despenteada...
O principezinho, então, não pôde conter o seu espanto:
- Como és bonita!
- Não é? Respondeu a flor docemente. Nasci ao mesmo tempo que o sol...
O principezinho percebeu logo que a flor não era modesta. Mas era tão comovente!
- Creio que é hora do almoço, acrescentou ela. Tu poderias cuidar de mim...
E o principezinho, embaraçado, fora buscar um regador com água fresca, e servira à flor.

Assim, ela o afligira logo com sua mórbida vaidade. Um dia por exemplo, falando dos seus quatro espinhos, dissera ao pequeno príncipe:
- É que eles podem vir, os tigres, com suas garras!
- Não há tigres no meu planeta, objetara o principezinho. E depois, os tigres não comem erva.
- Não sou uma erva, respondera a flor suavemente.
- Perdoa-me...
- Não tenho receio dos tigres, mas tenho horror das correntes de ar. Não terias acaso um pára-vento?
"Horror das correntes de ar... Não é muito bom para uma planta, notara o principezinho. É bem complicada essa flor..."
- À noite me colocarás sob a redoma. Faz muito frio no teu planeta. Está mal instalado. De onde eu venho...
Mas interrompeu-se de súbito. Viera em forma de semente. Não pudera conhecer nada dos outros mundos. Humilhada por se ter deixado apanhar numa mentira tão tola, tossiu duas ou três vezes, para pôr a culpa no príncipe:
- E o pára-vento?
- Ia buscá-lo. Mas tu me falavas...
Então ela redobrara a tosse para infligir-lhe remorso.

Assim o principezinho, apesar da boa vontade do seu amor, logo duvidara dela. Tomara a sério palavras sem importância, e se tornara infeliz.
"Não a devia ter escutado - confessou-me um dia - não se deve nunca escutar as flores. Basta olhá-las, aspirar o perfume. A minha embalsamava o planeta, mas eu não me contentava com isso. A tal história das garras, que tanto me agastara, me devia ter enternecido..."

Confessou-me ainda:
"Não soube compreender coisa alguma! Devia tê-la julgado pelos atos, não pelas palavras. Ela me perfumava, me iluminava... Não devia jamais ter fugido. Devia ter-lhe adivinhado a ternura sob os seus pobres ardis. São tão contraditórias as flores! Mas eu era jovem demais para saber amar."

trecho de "O pequeno Príncipe"

6 comentários:

Anônimo disse...

Lendo este trecho, lembrei-me de uma frase no pequeno príncipe que realmente não gosto:

"Você é responsável por aquilo que cativa"...

Qual a responsabilidade de quem deixou-se cativar? O que fez para continuar cativado?

Érica Martinez disse...

Ti, eu, que adoro O Pequeno Príncipe, já tinha publicado justamente esse trecho por aqui...
http://shee-hulk.blogspot.com/2007/02/histria-da-raposa.html
Não concordo com ele todo,
acho que às vezes, no calor das coisas, "é sempre mais fácil achar que a culpa é do outro", disse Raul, mas acho sim que TODA a responsabilidade é de quem deixou-se cativar... Só nós somos responsáveis pelos nossos atos...
O "continuar cativado" deve-se ao fato de o quanto nos sentimos satisfeitos ao termos nos aberto para as experiências... Se foi bom, lá ficamos, se não, caímos fora ou continuamos por lá, tentando, até que a vida nos prove o contrário...

MP disse...

Esse é mesmo um livro para lermos muito mais de uma vez só...

No meu trabalho de conclusão de curso, usei um trecho muito interessante para exemplificar o quanto o mundo adulto deixa de lado as crianças e que estas precisam ser ouvidas...
Posso te mandar meu trabalho, acho que você iria gostar!

PS: Mais uma vez, é muito bom estar de volta, não é mesmo?

Ju disse...

Inside every adult, there is a child wondering what happened.
Pelo menos dentro de mim tem...
And she wonders...

Flavio Ferrari disse...

Adorei o último parágrafo. Diz tudo.

Udi disse...

¿ uai..? pensei ter postado um comentário aqui ontem.

Dentre outras coisas dizia que gosto quando a rosa diz: "É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas".

E, se o Flavio se refere ao último parágrafo do livro: "E nenhuma pessoa grande jamais entenderá que isso possa ter tanta importância".