quarta-feira, 29 de agosto de 2007

não por acaso

Devorando o "A insustentável leveza do ser".

Não sei bem definir qual é o tipo de livro que realmente me atrai, visto que os que eu mais gostei (os que me lembro agora, omddc) não tem muita relação um com o outro (ou não...). Sei que com esse eu não consigo parar. Até a viagem chata de metrô passa rápido pq não consigo desgrudar os olhos do bendito...

Só pra situar: sem carro por 10 (deeeeeeeeeeeez!) dias, por conta de um motorista displicente que me acertou. E não me venham com o romantismo de que a viagem de metrô é interessante... Não é. Não nos horários de rush. Por minha sorte, na linha verde, o metrô nem é tão cheio, mas eu acho um saco. Ou não... rs... Porque assim tenho tido um tempo raro para ler meus livros... Anyway...

Um dos porquês de eu ter me apaixonado pelo livro foi resumido numa das páginas que estava lendo hoje, que fala sobre os acasos que transformam a vida num romance misterioso e lindo.
Acasos esses que fazem parte da minha vida o tempo todo, que eu procuro prestar atenção e buscar as respostas para poder desvendá-los.
Acasos esses que me fizeram bater o olho na estante e me despertaram o interesse por um livro que retratava justamente alguns fatos pelos quais já passei e que por conta de alguns desencontros estavam me levando a crer que era melhor não crer em mais nada disso.
Fascinante!
Por isso fiz questão de transcrever alguns trechinhos deste capítulo que é tão... revigorante... digamos assim...
Enjoy:



Durante a viagem de volta de Zurique a Praga, Tomas sentiu-se mal com a idéia de que seu encontro com Tereza tivesse sido o resultado de seis acasos improváveis.

Mas, muito pelo contrário, será que um acontecimento não se torna mais importante e carregado de significados quando depende de um número maior de circunstâncias fortuitas?
Só o acaso pode ser interpretado como uma mensagem. Aquilo que acontece por necessidade, aquilo que é esperado e que se repete todos os dias, não é senão uma coisa muda. Somente o acaso tem voz. Tentamos interpretar o acaso como as ciganas lêem no fundo de uma xícara o desenho deixado pela borra do café.
...
Tomas levantou os olhos para ela e sorriu: - um conhaque, por favor.
Nesse momento o rádio tocava uma música.
...
Beethoven
...
Ela conhecera Beethoven desde que um quarteto de Praga tinha vindo à pequena cidade fazer uma temporada...
...
Desse dia em diante Beethoven tornou-se para ela a imagem do mundo "do outro lado", a imagem do mundo ao qual aspirava pertencer. No momento, enquanto voltava do balcão com o conhaque para Tomas, esforçava-se para decifrar esse acaso...
...
O acaso tem suas mágicas, a necessidade não. Para que um amor seja inesquecível, é preciso que os acasos se juntem desde o primeiro instante, como os passarinhos sobre os ombros de São Francisco de Assis.
...
Nossa vida cotidiana é bombardeada de acasos, mais exatamente encontros fortuitos entre as pessoas e os acontecimentos - aquilo que chamamos de coincidências.
...
Mas o amor nascente aguçou nela a percepção da beleza, e ela jamais esquecerá essa música. Toda vez que a ouvir, tudo que acontecer em torno dela, nesse momento, ficará impregnado com seu brilho.
...
A vida humana é composta como uma partitura musical. O ser humano, guiado pelo sentido da beleza, transpõe o acontecimento fortuito para fazer disso um tema que, em seguida, fará parte de partitura da sua vida. Voltará ao tema, repetindo-o, modificando-o, desenvolvendo-o e transpondo-o, como faz um compositor com os temas de sua sonata... O homem incoscientemente compõe sua vida segundo as leis da beleza mesmo nos instantes do mais profundo desespero.
O romance não pode, portanto, ser censurado por seu fascínio pelos encontros misteriosos dos acasos, mas podemos, com razão, censurar o homem por ser cego a esses na vida cotidiana, privando assim a vida da sua dimensão de beleza.

Um comentário:

Udi disse...

Êba! Adorei ter uma amostrinha enquanto ainda não começo a ler. Alguém já disse que nada nessa vida é por acaso.